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Nietzsche, o filósofo pop

por Fabrício Behrmann

Hello Nietzsche

“Há homens que nascem póstumos”. Com essa frase o filósofo alemão pretendia deixar bem claro que sua obra não era destinada ao seu tempo, mas sim a um tempo futuro. E quem diria: o bigodudo estava certo.

Atualmente uma legião de adolescentes revoltados têm se tornado “seguidores” da filosofia nietzscheana. Isso deve-se ao fato de muitos jovens acabarem se identificando com a obra do autor, sua solidão e seu desprezo pela humanidade. “Não quero ‘crentes’; acredito que sou demasiado mau para crer em mim mesmo; eu nunca falo às massas… Tenho grande medo de ser, algum dia, santificado”. Nietzsche deve estar se revirando no caixão a essa altura. Realmente o autor não foi santificado, mas de alguma forma o carrancudo filósofo se tornou praticamente um ícone da cultura pop.

Em sua autobiografia – Ecce Homo – o filósofo escreveu: “desse modo compreenderão por que eu publico antes esse livro: deve ele evitar que se abuse do meu nome”. Na verdade o que temos visto ultimamente é bem o contrário do que pretendia o autor. Em diversas produções hollywoodianas figuram citações ou menções ao nome do filósofo: em Gênio Indomável (1997), Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004) e A Casa do Lago (2006).

Mas dentre todas as participações de Nietzsche no cinema, sem dúvida a melhor está em Pequena Miss Sunshine (2006). O filme é uma comédia com elementos de drama – considerado um road movie –, mas de certa forma contém uma crítica contundente e bem-humorada com relação ao “modismo” da filosofia nietzscheana. Em Pequena Miss Sunshine o talentoso Paul Dano (de Sangue Negro) interpreta Dwayne, um garoto que sonha entrar para a aeronáutica e ser piloto de aviões. O jovem também é um “seguidor” do filósofo alemão, tem inclusive uma grande bandeira com o rosto de Nietzsche em seu quarto e aparece em várias cenas usando uma camiseta com a frase: Jesus was wrong. Dwayne fez voto de silêncio até que consiga realizar seu objetivo e comunica-se com sua família apenas através de um pequeno bloco de notas que carrega consigo. Em certo ponto do filme Dwayne escreve para seu tio homossexual: I Hate Everyone. O personagem de Paul Dano é sem dúvida um retrato bem satirizado dos atuais admiradores juvenis de Nietzsche.

Além das menções hollywoodianas, o filósofo tornou-se sinônimo de grande possibilidade de lucro. O nome de Nietzsche figura em várias capas de revistas especializadas em Filosofia, como a Discutindo Filosofia e a Ciência & Vida Filosofia. O bigodudo foi até capa da edição n° 19 desta última, sendo reproduzido em forma de charge.

Nietzsche fez uma ponta até no mundo dos games. Os capítulos da famigerada trilogia de RPGs da Namco, Xenosaga, ganharam nomes que nos remetem imediatamente ao filósofo. Episode I: Der Wille zur Macht (A Vontade de Potência), Episode II: Jenseits von Gut und Bose (Além do Bem e do Mal) e Episode III: Also Sprach Zarathustra (Assim Falou Zaratustra). Ao menos, o jogo é considerado por muitos um dos mais filosóficos já feitos.

E as menções ao famoso alemão em produtos da indústria cultural da Terra do Sol Nascente não terminam por aí. O animê shonen-ai (gênero que retrata relações românticas entre homens) Loveless faz referência a filosofia nietzscheana. O personagem principal do animê em questão – Ritsuka, um garoto de 12 anos – é um admirador do bigodudo.

Outra aparição inusitada de Nietzsche é no famoso vídeo Dance Monkeys Dance de Ernest Cline. A montagem traz uma reflexão muito interessante sobre a condição humana. E também sobre o modismo com que vem sendo tratada a filosofia nietzscheana.

Vale lembrar que o filósofo alemão apareceu como personagem central do romance Quando Nietzsche Chorou (1992), de Irvin D. Yalom. O livro rapidamente se tornou um best-seller e em 2007 rendeu um filme de qualidade duvidosa, pra dizer o mínimo. É possível que o sucesso do romance tenha desencadeado toda essa superexposição. Todos os livros de Yalom, em suas versões nacionais, contêm em sua capa a atraente propaganda: “Do mesmo autor de Quando Nietzsche Chorou”.

Segundo o post sobre o Marilyn Manson (dia 20 de fevereiro) – da nossa companheira Iza Prado – até mesmo o excêntrico cantor se interessa pelo bigodudo! E como se tudo isso não bastasse, agora o nome de Nietzsche figura no título de um post no Blog do Mercúrio Cromo… “Agora vos mando que me percais e vos encontreis a vós mesmos; e só quando todos me houverdes renegado, tornarei para vós”, Assim Falou Zaratustra.

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11 Responses to “Nietzsche, o filósofo pop”


  1. 1 Capoba
    fevereiro 22, 2009 às 9:02 pm

    Interessante, veja bem, não sou nenhum pouco especialista em Nietzsche mas observo essa popularização do “bigodudo”. Se não me engano Nietzche tinha sérios problemas psiquiátricos tanto que morreu jovem e louco, ele tinha um motivo pra odiar tudo, sabia que estava enlouquecendo e que era questão de pouco tempo pra perder a razão. Já esse “pessoal” que se espelha nele, não querendo generalizar mas já generalizando, apenas se identificou devido aos conflitos, revoltas e frustrações que todo adolescente tem, sendo que muitos adoram levar isso pro resto da vida como se fosse algo legal, sinceramente considero uma banalização infrutífera, dificilmente adolescentes tem maturidade intelectual para ler e interpretar os textos do alemão, excetuando-se alguns casos pontuais logicamente.
    Enfim, é a minha interprtação da situação né, acho que na verdade eu estou xprssando aqui minha aversão a adolescentes e todas suas revoltas rs!!
    abraços

  2. fevereiro 22, 2009 às 9:23 pm

    Boa, Capoba! Concordo contigo.

    É exatamente o que diz o título: Nietzsche (escrever o nome dele exige concentração) é pop. Alguém achou que seria legal trazer as idéias do alemão para a mídia, e hoje um bando de adoscelescentes rebeldes se espelham nele, sem mesmo entender tudo o que ele foi e deixou para o mundo. Nietzsche é o pai do EMO!!!

    A partir do momento em que alguém achar que deve divulgar o machismo exarcebado de Schoppenhauer, será a salvação de bandas como Motorhead e Matanza! rs

  3. 3 Capoba
    fevereiro 22, 2009 às 10:52 pm

    Opa, bora divulgar Schoppenhauer (outro nome que exige concentração pra ser escrito), pro mundo então…

  4. 4 Fabrício Behrmann
    fevereiro 23, 2009 às 3:09 am

    Esse idéia de divulgar Schopenhauer não parece tão distante. Na verdade, o mesmo Irvin D. Yalom escreveu um livro intitulado “A Cura de Schopenhauer” (2005). E o filme A Vida é Bela (1997) contém menções ao filósofo (de uma forma bem humorada).
    Vale lembrar que Nietzsche (como bom aprendiz de Schopenhauer que era) também era um tanto misógino.

  5. 5 Carlos
    novembro 19, 2009 às 9:25 am

    “Capoba” você passou pela adolescencia, ou conseguiu ‘saltá-la’? Ao invés de agredir adolescentes em geral(…dificilmente têm maturidade intelectual…), porque não faz críticas mais estimulantes? Qualquer adolescente, se quiser, é capaz de interpretar textos filosóficos, pois é uma fase da vida muito imaginária, que vai longe; o que falta são pessoas que se dispõe a ouví-los e instigá-los à buscar experiência, compreensão, interpretação; enfim, Cultura!”

  6. 6 Tiago Tavares
    abril 1, 2011 às 2:19 pm

    Hahahahahahah Nunca li comentários tão superficiais sobre Nietzsche e Schopenhauer…

  7. 7 Tiago Tavares
    abril 1, 2011 às 2:21 pm

    Esqueci de colocar que concordo com Carlos.

  8. 8 Elric Saint
    março 24, 2012 às 6:21 pm

    Estranho como se vê sempre, pessoas revoltadas ao extremo, quando se deparam com comentários sobre a descrença em Deus …
    a busca pela razão e inevitável nesses casos.
    A incapacidade de ver uma opinião diferente das demais e tão grande, que começam a julgar tudo que for contra como “adolescente revoltado” …

  9. julho 12, 2012 às 6:31 pm

    nietzsche falava tanto em potencia, em virilidade, mas era apenas um fracassado, derrotado, desajustado socialmente,dependente toxico,louco e sem mulher. onde esta a potencia nisso? onde esta a virilidade nisso? e preciso fazer uma analise sobre oque esta por tras da intençao de nietzshe ao escrever essas coisas, e nao apenas ler e absorver suas palavras como uma esponja. faz parte dos fracassados criticar os vitoriosos, faz parte dessa filosofia para derrotados inventar desculpas por nao terem conseguido alcançar a glória!!! ele nao se exaltava, ou exaltava um povo como hittler fez, ele simplesmente criticava e diminuia os outros por nao conseguir ser vitorioso, por nao conseguir ser feliz. na verdade tenho muita pena dele, ele como uma age uma criança que se enfurece por nao ter ganhado o brinquedo esperado. vale ressaltar que as sociedades secretas que dominam o mundo creem em Deus, os banqueiro bilionarios que dominam a economia são judeus, e o proprio Diabo como muitos chamam tem absoluta certeza da existencia de Deus…

  10. julho 12, 2012 às 9:04 pm

    agora quem não acredita em Deus ou no diabo, por mais que seja inteligente em algumas areas, nao passa de uma ignorante espiritual. nao adianta ter inteligencia se nao tem sabedoria…

  11. 11 Percy de Oliveira Juunior
    fevereiro 11, 2014 às 3:15 pm

    Tivesse o bigodudo conseguido comer Cosima, a mmulher de Wagner, não teria escrito metade das pataquadas que escreveu


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